O Inferno que me Pariu

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DORADora ParvanaDora ParvanaAbrir página

Tá gravando?… Tá gravando, sim. Não dá pra ter certeza nessa porra sem visor.
Bem… A cada dia que passa parece que eu perco mais o controle. Puta merda… Não sei nem por onde começar a falar. Eu preciso lembrar o que aconteceu, tentar organizar os fatos na minha cabeça…

“Com quem você tá falando”?

“Não tô falando com ninguém, ô curioso. Sai daqui.”

Então… Onde eu parei?
Eu não dormi naquela noite. Só fiquei deitada, encarando o teto da casa alugada pelo Chocolate, sentindo meus músculos se contorcerem como se eu estivesse parindo um demônio. A boca tava com gosto de ferrugem impregnado. Provavelmente resíduo da explosão dos reatores — ou talvez seja sangue do meu próprio corpo tentando me expulsar por dentro. Foda-se, fui assim mesmo até a casa do GarrettGarrettGarrettAbrir página.
“Que cheiro de defunto!” Foi como dei bom dia pro velho… Ele não curtiu a piada.

Talvez seja por isso que ele não me falou a verdade. Eu queria entender se ele ia fazer alguma merda. Se o tal “último grande ato” era terrorismo, sabotagem, suicídio coletivo… alguma coisa. E ele me meteu um sorrisinho e mentiu na minha cara. Disse que era só uma festa de despedida. Que ele ia comparecer ao próprio velório — foi o jeito que ele falou. Tipo um repast… só que sem o morto.
A gente ficou o dia todo trocando palavras sobre porra nenhuma. Falei de como não existe espaço pra alguém como eu nessa galáxia de merda controlada por essa porcaria de Império. E ele mandou eu procurar um tal de Saw GerreraSaw GerreraSaw GerreraAbrir página… Quem sabe? Às vezes eu nem entendo como ainda consigo fingir que existe um futuro.
Aliás, falando em futuro… Quando o 3L-OM3L-OM3L-OMAbrir página pediu pra Laellis ler meu destino naquelas cartas ridículas dela, ela olhou bem dentro dos meus olhos e disse: “Você não tem futuro.”
Pois é.
Mandei os dois se foderem.

Saímos da casa do GarrettGarrettGarrettAbrir página. SaraSaraSaraAbrir página empurrava ele numa cadeira de rodas que rangia de um jeito que doía meus ouvidos. Quando chegamos na praça, aquela porra já tava fervendo. Ela levou o velho pra uma sacada de onde ele ia “curtir” a própria despedida.
Eu fui me perder no meio da multidão. Fui até a fonte onde a Elise desapareceu. Sentei na borda, enchi minhas veias de glitterstim e deixei a merda me tomar. Burra. Mas eu queria me desligar. Queria ver o planeta flutuar, colorido, cristalino, sem essa cor de sangue de minério que ele tinha.
O Esquadrão RancorEsquadrão RancorEsquadrão RancorAbrir página estava por aí, mas eu não via ninguém desde a casa do Mr. Chocolate. Tinha um pessoal suspeito se esgueirando pelos becos como animais a caça da presa. A paranoia mordeu meu pescoço e resolvi voltar pra junto da SaraSaraSaraAbrir página e do velho.
No caminho, esbarrei com o ShawnBen ShawnBen ShawnAbrir página. Puxei a capa dele. Ele me olhou como quem vê uma vadia bêbada vomitada no meio da rua. Falou alguma merda qualquer, naquele tom passivo-agressivo dele. Escroto. Nunca falou nada bom sobre mim.

Subi no balcão. GarrettGarrettGarrettAbrir página começou a discursar. Era uma tremenda gambiarra — comunicador virado em microfone, 3L-OM3L-OM3L-OMAbrir página amplificando nos próprios alto-falantes e transmitindo via-rádio para todo lado. Todo mundo parou para ouvir. Ele enfiou o dedo na cara do Império, escancarou a escravidão, o saque, o verniz de ordem sobre a merda quente da opressão.
E aí eu lembrei do que ele tinha dito. “Não, DoraDora ParvanaDora ParvanaAbrir página. Não vou fazer nada”.
Mentiroso do caralho.
Mas o discurso… foi bonito, sim. A praça parou. Até os filhos da puta dos imperiais congelaram. Só que qualquer idiota poderia notar que aquilo ia virar carnificina. Falei pra SaraSaraSaraAbrir página: vamos sumir antes que sobre para nós.
Não deu tempo.
Um tiro de blaster explodiu a cabeça do GarrettGarrettGarrettAbrir página. A porra da cabeça dele virou um saco de fruta podre jogado no asfalto. Eu fiquei coberta de miolos, sangue quente, ossos quebrados. Tinha um pedaço de dente no meu ombro.
Foi o estopim. Os insurgentes — os que estavam rastejando nos becos — começaram a atacar. Os imperiais reagiram. Tudo explodiu.
FluffyFluffyFluffyAbrir página e o robozinho3L-OM3L-OMAbrir página estavam no setor norte. Isolados. Sem caminho até a van. Um blindado imperial avançava como se fosse esmagar a multidão. Eles engajaram ali mesmo. Era perto da base imperial, então a porra toda tava cheia de troopers. Eu não vi o que aconteceu. Só lembro dos clarões e do cheiro de explosivos.
FluffyFluffyFluffyAbrir página parece se alimentar da violência. Aliás, ele e o 3L-OM3L-OM3L-OMAbrir página são o músculo dessa porra de esquadrão. Precisavam estar com a gente, não jogados do outro lado da cidade.
Quando eu e SaraSaraSaraAbrir página descemos da casa, vimos que a única rota até a van passava por um posto imperial com uns seis ou oito troopers. Os homens do Denis (os fãs do ShawnBen ShawnBen ShawnAbrir página) estavam do outro lado da rua. E aí eu caguei no pau.

Peguei o detonador termal.
Joguei.
Não pensei. Só queria abrir caminho. Um impulso. Um impulso covarde para caralho – típico meu.

Não vi a Laellis.
Só vi depois o cadáver dela. Um pedaço de crânio. Um pé. Um tufo de cabelo misturado com carne. Era ela. E fui eu.
Não o Império. Não os troopers.
Fui eu quem a matou.

A gente nem era próxima. Mas já tínhamos transado. Mais de uma vez. E ela era do Esquadrão RancorEsquadrão RancorEsquadrão RancorAbrir página.
Enfim…
Alcançamos o ShawnBen ShawnBen ShawnAbrir página e o Denis. O Mister ChocolateMister ChocolateMister ChocolateAbrir página tava lá também. A merda tava feia. Um stormtrooper chegou num speeder, e em segundos teve tiroteio. Um dos homens do Denis caiu morto. O ShawnBen ShawnBen ShawnAbrir página matou o trooper logo em seguida.
A SaraSaraSaraAbrir página tava caída. Igual um saco de merda jogado no chão. Eu não vi quando ela caiu, porque ela estava atrás de mim. Abaixei desesperada. “De novo, não.” Minhas mãos tremiam tanto que quase enfiei o steampack no meu próprio braço. Mas funcionou. Ela tossiu sangue. Se levantou. Milagre. Chegamos até a van antes dos outros.
Nem tinha terminado de ajudar ela a sentar quando o ShawnBen ShawnBen ShawnAbrir página entrou e tomou o volante. Logo depois, Mister ChocolateMister ChocolateMister ChocolateAbrir página, Denis e os cacos dos seus homens também entraram. Mesmo com os disparos do canhão do tanque imperial na nossa direção, o ShawnBen ShawnBen ShawnAbrir página manteve a calma e manobrou a van para nos tirar dali. Ele sabe lidar com máquinas – pra caralho.

A van era um forno fedorento de suor, sangue, e cabelo queimado. Fedia a desespero. Depois fiquei sabendo que o FluffyFluffyFluffyAbrir página derrubou um pelotão sozinho. E o 3L-OM3L-OM3L-OMAbrir página também.
Quando a van finalmente saiu da zona de combate, eu desabei no colo da SaraSaraSaraAbrir página. Comecei a chorar de um jeito ridículo. Uma coisa descontrolada, cheia de soluços, cheia de catarro, babando… Argh.
Eu pensava sem parar que alguns dias antes eu montei do colo da Laellis e comecei a maquiar ela. Era para ela seduzir os imperiais, enquanto eu tentava me infiltrar dentro do posto. Ela ficou linda. Uma puta linda. E eu, a cafetina exploradora. As meninas me obedeciam. Faziam todas as merdas degradantes que eu falava para elas fazerem.
Essa lembrança me virou do avesso. Porque eu tô tentando ser melhor. Tô tentando falar menos merda, ser menos filha da puta. Mas é inútil. Tem algo errado dentro de mim. Um buraco quente no meio do útero que quer me puxar pro inferno que me pariu.
Ninguém falava dentro da van. Só o ShawnBen ShawnBen ShawnAbrir página falou com o Teyo. O moleque é liso. Os rebeldes tomaram o espaço-porto. Ele fugiu antes que virasse carne moída. Graças a ele, a gente deixou o planeta.
Fomos pra um planeta-cassino. SaraSaraSaraAbrir página recebeu tratamento médico. Ficamos uma semana. Mister ChocolateMister ChocolateMister ChocolateAbrir página ficou por lá. Eu nem me despedi dele. Eu tava em transe, pensando na Laellis de forma obsessiva.
Minha cara parece um fantasma de ressaca. Boca rachada. Os olhos iguais dois buracos. A garganta arranha como se eu andasse comendo caco de vidro.

Hum… Estou perdendo o foco. Pois bem, seguimos as coordenadas do local para onde era enviado o durasteel da Erys Mining.
Eu jurava que era no mesmo planeta. Mas não. Fizemos a porra de uma DOBRA ESPACIAL e caímos direto na cara de quatro destróieres imperiais.
QUATRO!!!
E o gênio do ShawnBen ShawnBen ShawnAbrir página? Capitão da nave? Teve a brilhante ideia de não verificar pra onde a gente ia antes de dar o salto!!!
O que ele fez a semana inteira? FICOU COÇANDO O CU?!?!

Agora a gente tá preso na CortanaCortanaCortanaAbrir página, atracada num destróier. ShawnBen ShawnBen ShawnAbrir página inventou que o sistema de navegação quebrou. E o Império acreditou. Uma equipe de técnicos vem arrumar o problema… Até que a desculpa foi boa. Dou esse crédito a ele.
O fiscal parece de boa – ainda mais depois que eu dei em cima dele. Então talvez a gente tenha uma chance de sair daqui.
Mas agora o grupo quer usar isso pra avançar nos objetivos. Querem invadir um terminal imperial. Descobrir pra onde vai o durasteel. Descobrir se Elise ainda tá viva. Talvez até encontrar a chave da maldita mídia que o 3L-OM3L-OM3L-OMAbrir página pensa que vai ajudar ele a encontrar a tal garota desaparecida.
A merda é que ninguém sabe como acessar a rede de terminais sem levantar suspeita. E o mais doentio é que… no fundo, eu quero fazer isso. Eu quero me infiltrar nessa merda. Mesmo que custe mais vidas. Mesmo que custe a minha.

Mas não sou só eu que estou chocada. Até o ShawnBen ShawnBen ShawnAbrir página está abalado. Parece que perdeu o instinto de autossobrevivência dele.
O FluffyFluffyFluffyAbrir página tá inquieto. Ele tem essa coisa de farejar sangue no ar. Igual um cão de guerra. E ele tá farejando agora.
O 3L-OM3L-OM3L-OMAbrir página finge que não liga pra nada, mas eu vejo como ele recalibra as juntas a cada trinta segundos. Como se estivesse pronto pra pular na garganta de alguém.
A SaraSaraSaraAbrir página… Ela tenta me consolar. Mas eu sei que ela também tá quebrada. Ela não fala do blaster que quase a matou, mas às vezes, quando ela acha que ninguém tá olhando, ela fica apertando o ponto onde a ferida foi fechada.

Eu vejo isso. Vejo tudo.

Céus, que vida perdida, inútil e desconsolada é a minha.

É isso.

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